Uma reflexão sobre The Boys: frustração e exploração midiática

Uma reflexão sobre The Boys: frustração e exploração midiática

Uma reflexão sobre The Boys: frustração e exploração midiática

Olá, marujos! Hoje faremos uma reflexão sobre a série The Boys, da Amazon Prime. Veremos que uma realidade onde existem super-heróis está longe de ser perfeita, que vale tudo pela fama, que a mídia nos manipula sem percebermos e que as frustrações podem aparecer onde menos esperamos. Fiquem tranquilos que não teremos spoilers nessa reflexão. Tudo o que for contado aqui faz parte do enredo-base da história e não vai estragar nenhuma surpresa. Vamos lá!

Sobre The Boys

A série The Boys é inspirada em um quadrinho de mesmo nome. É uma sátira aos quadrinhos e filmes de super-heróis que tanto faz sucesso hoje em dia. Ela é ambientada em nossa sociedade atual e tenta mostrar como seria a nossa realidade caso realmente existissem super-heróis.

Nós acompanhamos a história de dois personagens. As histórias ocorrem em paralelo, mas depois se cruzam. De um lado, temos a super-heroína Luz-Estrela (Erin Moriarty) acabando de ser contratada pela Vought para integrar o grupo dos Sete (a elite dos super-heróis). Nesse universo, os super-heróis são agenciados por uma megaempresa multimilionária! Ao mesmo tempo, acompanhamos a história de Hugh Campbell (Jack Quaid), que vai de fã e entusiasta dos heróis a inimigo deles porque um super-herói lhe causa uma terrível situação.

O nome The Boys se refere ao grupo formado por Hughie, Billy Bruto (Karl Urban), Leitinho (Laz Alonso) e Francês (Tomer Capon), um grupo que tem como principal objetivo matar os super-heróis e desmoralizar a Vought.

Uma reflexão sobre The Boys: a frustração com o ídolo

Luz-Estrela era uma heroína do interior. Cristã fervorosa, ela acreditava que seus poderes foram dádivas de Deus e sua missão na terra era ajudar as pessoas. Seu sonho se realizou quando ela conseguiu ser contratada pela empresa Vought, que administra a carreira dos super-heróis, para fazer parte do principal grupo deles, os Sete.

Entretanto, seu sonho não durou muito. Quando ela iniciou a convivência com o grupo, descobriu que seus ídolos não são nem um pouco santos… ela descobriu que os heróis e a própria Vought são extremamente corruptos.

A Vought porque só está preocupada com o lucro, dando mais atenção para os eventos midiáticos e seus exorbitantes cachês do que propriamente ajudando pessoas em perigo. Já os heróis têm a síndrome da idolatria, se considerando uma raça superior, quase deuses, acima do bem e do mal.

O problema pelo qual passou Luz-Estrela é um problema que muitos de nós podemos passar quando idolatramos algo ou alguém. Parece que existe uma necessidade nas pessoas de colocarem algo ou alguém acima de si e idolatrar aquilo como uma necessidade vital. Isso ocorre tanto em religiões quando na política, e muitas vezes com famosos.

Deve-se perceber que o problema não é ter uma religião, ser filiado a um partido político ou admirar alguém famoso. O problema é a idolatria a isso tudo. A pessoa deixa de ter uma opinião própria sobre diversos aspectos porque ela teve sua opinião manipulada ou contaminada pela opinião do seu ídolo. Ela percebe que algo não está certo nas atitudes e comportamento dos ídolos, mas mesmo assim continua apoiando incondicionalmente, se negando a admitir que algo esteja errado, achando justificativas esdrúxulas para o que observa.

Esse é um sério problema de confiança em si mesmo. O ídolo serve para que ela se sinta incluída, pertencente a um grupo, integrante de algo maior que ela. O medo de abandonar o ídolo é o medo da solidão, do isolamento, já que ela não sabe se conseguirá encontrar outro grupo para se encaixar.

Uma pessoa que vive dessa forma, pode até conseguir abandonar um ídolo, mas acabará se agarrando a outro. A verdadeira libertação só poderá ocorrer se ela conseguir ouvir sua voz interior, sua razão, e começar a pensar por conta própria.

Às vezes, o problema também pode ser a má-fé. Esse é um conceito criado por Jean-Paul Sartre para explicar o porquê de algumas pessoas não aceitarem o existencialismo. Sartre argumenta que o ser humano não quer se responsabilizar pelas suas ações e atitudes, e coloca a justifica de tudo o que faz em alguém. É a clássica frase “quem obedece não erra” levada ao extremo. O filósofo critica as pessoas que pensam assim, porque ele sabe que o ser humano tem que ser capaz de agir por conta própria e se responsabilizar pelos seus atos.

Uma reflexão sobre The Boys: a falsa verdade das mídias sociais

O maior objetivo da Vought não é salvar o mundo e sim lucrar com ele. Ajudar as pessoas é só o meio de ganhar fama e mídia gratuita. Depois, o foco é na venda do herói. Tudo o que nós consumimos de super-heróis atualmente é também consumido no universo de The Boys e ainda mais um pouco. Temos filmes, quadrinhos, eventos, patrocínio, comerciais, roupas e assessórios, bonecos e brinquedos, produtos licenciados e tudo o mais que possa gerar lucro com a imagem dos super-heróis.

E, para manter os heróis sempre na mídia, existe um investimento pesado em marketing pessoal. Equipes inteiras para cuidar da agenda, dos patrulhamentos, das intervenções de salvamento, e especialmente da imagem deles. Aquilo que é postado sobre cada um deles não são eles realmente. Os heróis criaram um personagem dentro do personagem.

Essa superexposição criou dois tipos de heróis. De um lado, alguns heróis se afundaram em uma depressão, em que eles nem sabe mais quem são. Do outro lado, alguns se tornaram extremamente egocêntricos, considerando-se os verdadeiros donos do mundo.

Enquanto isso, os humanos “normais” só fazem idolatrar esses heróis sem saberem o que acontece por trás das câmeras. Eles mal desconfiam quantos problemas os super-heróis criam para a cidade e são acobertados pela manipulação de informações.

Essas questões mostram o problema das mídias sociais. Nós acreditamos em tudo o que vemos lá, como se aquelas vidas fossem as reais vidas das pessoas. Só que não é assim que vivemos, nós só registramos fatos importantes ou engraçados de nossas vidas, nós posamos para as fotos, nós selecionamos o que mostramos para os outros. E é a mesma coisa que os outros fazem e nós ainda acreditamos que aquelas vidas são reais.

Todos nós temos problemas e perrengues na vida. Faz parte do viver e temos que aceitar isso. Da mesma forma, não podemos querer nos transformar em quem não somos apenas para ganhar curtidas e compartilhamentos do que fazemos.

Não podemos nos esconder atrás das mídias sociais e nem pautar nossas vidas por elas, como se o mais importante fosse ser notado por milhares de pessoas que não conhecemos e nunca ouvimos falar. Um dia o interesse acaba, as pessoas vão embora e não sabemos mais quem somos. Às vezes, infelizmente, até tentamos nos reinventar para voltar para a fama da Internet.

O filósofo Guy Debord criou o conceito de sociedade do espetáculo, que representaria nossa sociedade atual. Hoje, nossa missão não é viver nossas vidas, e sim criar uma vida alternativa no mundo virtual. Só que essa vida é para os outros e não para nós mesmos. É uma falsa verdade que criamos, e acabamos acreditando em nossas mentiras.

Conclusão

Essa série tem muito mais para nos apresentar, mas tentei ao máximo não estragar a experiência de assisti-la. Essas reflexões apresentadas são só o começo de muita discussão interessante que pode ser feita ao longo dos episódios.

Vimos aqui, nessa reflexão sobre The Boys, o quanto que é perigoso idolatrarmos algo ou alguém, deixando de tomar decisões por nós mesmos. Também vimos que aquilo que a mídia nos mostra é um falso recorte da verdade, que cria uma verdade paralela com a intenção de nos convencer a gostar do que estamos vendo. Devemos fugir dessa situação, tanto em acreditar no que os outros postam quanto em querer viver uma vida alternativa nas mídias sociais. Nesses dois casos, essas posturas só fazem mal a nós mesmos e um dia a vida nos cobrará esse tempo perdido.

E aí? Já tinha visto essa série? O que achou? Deixa aí nos comentários! Quer estimular outras pessoas a verem a série ou conhece alguém que já viu e gostou? Compartilha esse artigo com ela! Quer sugerir outra série ou debater uma questão que envolve spoilers, me manda uma mensagem pelo Formulário de Contato ou através das mídias sociais do blog.

Até a próxima e tenham uma boa viagem!

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Professor de filosofia desde 2014 e nerd desde sempre. Tem como objetivo pessoal mostrar às pessoas que filosofia é importante e não é uma coisa chata. Gosta de falar dos temas filosóficos de forma descontraída e atual, fazendo muitas referências ao universo nerd.