Ensinando Epistemologias Filosóficas através de Dinâmica: O que Você Faria se fosse o Médico?

Ensinando Epistemologias Filosóficas através de Dinâmica: O que Você Faria se fosse o Médico?

Olá, marujos! Hoje, mostrarei como vocês podem estar ensinando as quatro principais epistemologias filosóficas através de uma dinâmica, a qual coloca o aluno na posição de um médico que precisa tomar uma decisão crucial na vida do paciente. Dependendo do tempo que o professor tem para trabalhar os seus conteúdos, pode ser que ele precise ensinar as epistemologias do Círculo de Viena, de Popper, de Kuhn e de Feyerabend em uma mesma aula (como já aconteceu comigo). Por isso, elaborei essa dinâmica que consegue apresentar resumidamente as quatro teorias epistemológicas e ainda provoca um debate ético bem interessante entre os alunos. Vamos lá!

Relembrando o Conceito

Epistemologia costuma ser o nome dado para uma subárea da filosofia da ciência que foca mais em teorias relacionadas a quais métodos são válidos ou não para encontrar um saber considerado científico. Normalmente, trabalhamos quatro conceitos:

Critério da Verificabilidade: proposta pelo Círculo de Viena, considera científico um saber que pode ser comprovado, seja matematicamente, seja através de experimentos práticos. Se não existe forma de comprovar uma tal teoria, essa teoria não seria científica.

Falsificacionismo: proposta por Karl Popper, considera ser impossível verificar plenamente uma teoria científica. Sendo assim, ele considera como científica uma teoria razoavelmente testada e que, posteriormente, resiste a tentativas de provar que ela está errada. Quanto mais resiste, mais se prova correta. Porém, nesse tipo de pensamento, sempre existe margem para, um dia, se provar que tal teoria estava equivocada.

Paradigma: proposta por Thomas Kuhn, considera que a ciência avança através de ciclos, com verdades científicas de uma época sendo abandonadas quando não funcionam mais e novas verdades científicas sobre um mesmo assunto são criadas porque conseguem dar conta dos problemas antigos e novos. Essa epistemologia valoriza bastante a comunidade científica porque entende que a verdade científica depende do consenso dos cientistas para validá-la.

Anarquismo Epistemológico: proposta por Paul Feyerabend, defende que precisamos flexibilizar os métodos científicos para conseguirmos mais e melhores resultados para a ciência. Segundo o filósofo, se ficarmos muito presos aos métodos considerados válidos, perderemos oportunidades de avanços científicos criativos.

Para conhecer mais profundamente cada uma dessas teorias, recomendo a leitura dos textos: Critério da Verificabilidade Descomplicado, Falsificacionismo Descomplicado, Paradigma Descomplicado, Anarquismo Teórico Descomplicado.

Ensinando Epistemologias Filosóficas através de Dinâmica: O que Você Faria se fosse o Médico?

Proposta

Cada aluno assumirá o papel de um médico oncologista, que possui um paciente com um tipo anormal de câncer.

Não existem relatórios ou estudos conclusivos sobre tratamentos desse tipo específico de câncer. O máximo que você encontrou foram similaridades desse câncer com um outro tipo de câncer comum que possui um tratamento eficaz.

O paciente já chegou debilitado e você só pode escolher um tipo de tratamento.

O paciente decidiu fazer o que você quiser.

Cada tratamento tem uma probabilidade maior de sucesso, mas, ao mesmo tempo, tem mais risco de morte imediata (durante o procedimento).

Considere que esse paciente tem verba para fazer qualquer um desses tratamentos e que seu estado de realização pessoal é mediano (ou seja, já realizou algumas coisas na vida, mas ainda quer realizar mais).

A estimativa de vida dele no caso de o tratamento não funcionar é irrelevante, assim como a qualidade de vida após o tratamento (funcionando ou não). Focar mais em que ele gostaria de tempo para realizar mais coisas em sua vida e que, se o tratamento não funcionar, ele não conseguirá realizar essas coisas.

Qual você escolhe?

1. Propor um tratamento tradicional que já foi comprovada a eficácia pela ciência no câncer similar (exemplo: quimioterapia tradicional) [risco de morte: 1%; chances de cura: 25%].

2. Propor um tratamento tradicional, mas muito experimental, para esse tipo de câncer (exemplo: quimioterapia modificada) [risco de morte: 25%; chances de cura: 50%].

3. Propor um tratamento alternativo que tem sido testado em países mais liberais e que tem apresentado resultados positivos (exemplo: células-tronco não embrionárias) [risco de morte: 50%; chances de cura: 75%].

4. Propor algo inexplorado na prática, mas que você julga totalmente eficaz por estudos teóricos (exemplo: transplante inter vivos sendo o doador um parente que deu consentimento) [risco de morte: 75%; chances de cura: 99%].

Execução

No começo da aula, faça a proposta da dinâmica sem explicar o objetivo final (que é o conteúdo da matéria).

Coloque no quadro os números 1, 2, 3 e 4 para você anotar os votos.

Leia a história para os alunos e as possíveis escolhas. Tire todas as dúvidas que surgirem, deixando sempre claro que, por ser tratar de uma dinâmica escolar, não é para ficarmos apegados a detalhes e também não é para criarmos suposições. Por exemplo: é para escolher apenas um tratamento; não existe a possibilidade de escolher o “mais seguro” e, se não funcionar, tentar outra opção.

Nesse tipo de dinâmica, sempre terá o aluno que, com boa ou má intenção, vai tentar manipular as informações para fazer uma escolha menos “comprometedora”. Por isso, deixe claro que a proposta da dinâmica exige que o aluno se posicione e se comprometa, mas que também não é para o aluno se sentir vilão ou incapaz porque não existe uma resposta certa, todas são possibilidades válidas dentro da proposta.

Pergunte para cada aluno qual o voto dele e peça uma justificativa (não precisa ser nada sofisticado, mas exija que ele dê um motivo de por que escolheu aquele tratamento em vez dos demais). Tire dúvidas pontuais se aquele aluno ainda não entendeu a proposta da atividade ou as opções.

Depois que todos votarem, dê a opção de mudar de voto, caso alguém queira (é interessante interrogar o motivo da mudança, para entender o pensamento por trás da decisão).

Finalização

Contabilize os votos e descubra qual tratamento ganhou mais adeptos.

Explique ou relembre que nenhum desses tratamentos era o certo. Todos eram opções válidas e cada aluno apenas escolheu um caminho de acordo com a concepção epistemológica que ele considerava mais adequada.

A partir disso, o professor irá explicar as quatro concepções epistemológicas, relacionando-as com os tipos de tratamento da dinâmica.

Ensinando Epistemologias Filosóficas através de Dinâmica: Relacionando a Dinâmica com a Matéria

Cada uma das opções de tratamento tenta emular uma visão epistemológica do “médico”:

1. Critério da Verificabilidade: escolher essa opção, é escolher algo que foi testado e validado. É crer que o melhor caminho está em seguir algo que já foi corroborado. Essa visão tem a ciência como algo verificado e, por isso, um médico com essa visão não arriscaria a vida do seu paciente em algo que não foi ainda testado e validado o suficiente.

2. Falsificacionismo: escolher essa opção é escolher algo que ainda está sendo testado e validado, mas que já passou por um processo anterior de teste e validação eficaz. Essa visão tem a ciência como algo probabilístico e, por isso, um médico com essa visão entende que é necessário um pouco de risco porque é preciso testar a teoria para ter certeza se ela funciona ou não.

3. Paradigma: escolher essa opção é escolher algo que parte da comunidade científica já aceita, mas outra parte não. Podemos dizer que é tomar parte de um lado. Essa visão tem a ciência como algo que gera debate e disputa entre os estudiosos e que, por isso, é preciso se posicionar e seguir com um grupo, mesmo que ele não seja a maioria. Não é se arriscar no escuro porque existem provas que corroboram aquele caminho, só não é ainda um consenso. Um médico com essa visão epistemológica dá crédito para aquilo que ele confia, aquilo que ele está vendo funcionar (mesmo que nem todos concordem com ele).

4. Anarquismo Epistemológico: escolher essa opção é escolher algo tão inovador que você poderá ser tratado como visionário ou louco dependendo do resultado. Essa visão de ciência entende que tudo é um risco, mas se não tiverem pessoas arriscando, as coisas não evoluem. Não é 100% um tiro no escuro porque o tratamento parte de um pressuposto teórico adequado, mas a execução é inovadora e, por isso, arriscada.

Ensinando Epistemologias Filosóficas através de Dinâmica: Interdisciplinaridade

Essa aula pode ser dada junto com o professor de Biologia / Ciências e Sociologia.

No caso do professor de Biologia / Ciências, pode-se fazer o debate sobre os métodos científicos, a evolução da ciência médica, e bioética.

No caso do professor de Sociologia, pode-se fazer o debate sobre as implicações sociais dos tratamentos de saúde, especialmente os tratamentos específicos e de alto custo. Debater sobre como funciona o investimento público e privado nessas tecnologias e os impactos sociais do oferecimento desses tratamentos de forma pública ou privada nos países.

Conclusão

Sempre tive resultados positivos na aplicação dessa dinâmica em sala. Os alunos engajam bastante, tanto votando quanto defendendo seu ponto de vista. Ela funciona muito bem como resumo e comparativo dessas quatro epistemologias, apresentando um quadro geral dessa subárea filosófica.

E aí? Alguma parte ficou confusa? Deixa sua dúvida nos comentários! Conhece algum professor de filosofia? Compartilha esse artigo com ele! Quer sugerir outra área da filosofia que precise de um “resumo comparativo” para uma aula lúdica? Entra em contato comigo!

Até a próxima e tenham uma boa viagem!

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Professor de filosofia desde 2014 e nerd desde sempre. Tem como objetivo pessoal mostrar às pessoas que filosofia é importante e não é uma coisa chata. Gosta de falar dos temas filosóficos de forma descontraída e atual, fazendo muitas referências ao universo nerd.