Olá, marujos! Hoje, faremos uma reflexão sobre a minissérie animada Olhos de Wakanda. Ela conta a história de quatro Guerreiros que sacrificam suas vidas pessoais pelo bem de Wakanda. Na reflexão, falo um pouco sobre essa atitude, se ela é correta ou não, para cidadão. Também falarei do problema do isolacionismo de Wakanda. Não teremos spoilers da minissérie.
Sobre a Minissérie (SEM Spoilers)
Olhos de Wakanda é uma série animada de apenas quatro episódios. Ela se passa no passado da humanidade, em quatro épocas diferentes, mas se conecta com o atual MCU no final. Ela estreou em 2025 e parece ser fechada (sem chances de continuação). Está disponível na Disney+.
Wakanda possui os Hatut Zeraze (ou Cães de Guerra). Eles são guerreiros de elite, que vivem no mundo exterior como espiões, prontos para cumprir uma missão de Wakanda.
Na série, acompanhamos quatro desses guerreiros, em diferentes épocas passadas da humanidade, todos com o objetivo de resgatarem artefatos ou materiais wakandanos que foram roubados.
Cada um tem uma personalidade diferente, cada um vive uma história diferente, mas todos estão comprometidos com a causa wakandana.
Quer conhecer a história desses guerreiros? Quer entender como elas se conectam com o MCU que conhecemos? Veja Olhos de Wakanda na Disney+.
Reflexão sobre Olhos de Wakanda: Wakanda em Primeiro Lugar
Wakanda é uma nação fechada para o mundo exterior de tal forma que poucos sabem da sua existência. Contudo, isso não impede que alguns invasores consigam entrar e roubar materiais ou artefatos wakandanos, ou que traidores fujam para o mundo exterior levando esses itens.
Para recuperar esses bens, Wakanda treina e envia para missões os Hatut Zeraze, que na língua deles significa Cães de Guerra. Esses guerreiros passam meses ou até anos fora de casa em uma missão para garantir que tudo saia como planejado, o que inclui recuperar o item de tal forma que ninguém perceba, para que a existência de Wakanda continue oculta.
Esse tipo de serviço exige pessoas desprendidas de suas vidas pessoais e extremamente apegadas à nação e ao senso de dever. Para eles, a missão e Wakanda devem vir em primeiro lugar sempre.
Na minissérie, vimos vários tipos e exemplos de sacrifícios pessoais pela causa wakandana. E isso me lembrou tanto da ética kantiana quanto da sociologia de Durkheim sobre suicídio.
A Ética do Dever Kantiana
Para Kant, a moralidade se encontra no dever. Dever, aqui, é o critério racional que leva o ser humano a agir do jeito correto independentemente de qualquer inclinação pessoal.
No caso dos Cães de Guerra, eles foram educados (ou condicionados, se você for um crítico) a colocar Wakanda acima de tudo. Eles possuem um senso de dever enorme (até mesmo extremo, em alguns casos).
Para Wakanda, isso é essencial para garantir que eles cumpram a missão. Mas será que isso faz bem aos guerreiros?
A ética kantiana não coloca o dever moral como algo direcionado a um fim que se possa escolher (nesse caso, o bem de Wakanda). O fim último da ética kantiana é o ser humano em si, a humanidade como um todo.
Sendo assim, o senso de dever dos Cães de Guerra não está alinhado com a filosofia de Kant. A ética de Kant não aceitaria que alguém abrisse mão da sua vida pessoal em prol do Estado, a não ser em uma situação em que a vida dos cidadãos estivesse em risco.
Isso nos leva a refletir os limites que uma instituição pode colocar para os seus funcionários. Mesmo que o funcionário aceite o sacrifício ou tenha ciência dele desde o começo, não é certo exigir uma dedicação 100% à causa da instituição porque existem outros aspectos da vida do subordinado que precisam ser atendidas para que ele se realize plenamente como ser humano.
O Suicídio Altruísta Durkheimiano
Émile Durkheim fez um estudo sociológico do suicídio e descobriu que uma das causas que levam pessoas a tirarem a própria vida é a presença de um sentimento de que sua sociedade é mais importante que ele (indivíduo).
O exemplo mais emblemático da atualidade são os soldados kamikazes japoneses, que se sacrificavam jogando seus aviões sobre alvos militares durante a 2ª Guerra Mundial. Porém, esse gesto também pode ser visto quando um soldado participa de uma missão praticamente suicida cujo o sucesso não é garantido ou o resultado não é tão relevante.
Em vários momentos da minissérie, os Cães de Guerra passaram por situações que poderiam ser consideradas suicídios altruístas porque eles não pestanejaram em abrir mão de suas vidas para concluir a missão, sempre dizendo que estavam fazendo isso por Wakanda, missões essas que não estavam colocando em risco a vida de wakandanos diretamente.
Essa situação nos leva a pensar o modo como muitos militares são sacrificados em guerras sem sentido. Também nos leva a pensar o modo como esses soldados são treinados, já que muitos não veem problema nesse sacrifício.
Não estou dizendo que não deveríamos lutar para proteger nossa nação. Meu questionamento são os sacrifícios de vida sem sentido, porque a pessoa dá pouco valor para sua vida, dando mais valor ao Estado.
Reflexão sobre Olhos de Wakanda: A Paz Perpétua
A minissérie também faz uma crítica ao isolamento de Wakanda do resto do mundo, mostrando que uma hora essa atitude se voltaria contra ela.
Immanuel Kant escreveu um pequeno texto chamado À Paz Perpétua em que tenta mostrar a necessidade das nações se unirem para, juntas, conseguirem atender as necessidades dos seus cidadãos.
Para o filósofo, o ser humano só conseguirá atingir seu potencial máximo se a sociedade em que ele vive permitir isso. Porém, essa sociedade também precisa que as demais sociedades permitam isso porque, se não for assim, uma sociedade de paz e prosperidade poderá ficar vulnerável a uma sociedade belicista e expansionista.
Wakanda se considerava autossuficiente e percebeu tarde demais que as nações precisam cooperar, trabalhar juntas, para o sucesso de todos.
Podemos trazer esse debate para a nossa realidade e pensar nas constantes guerras sem sentido entre países vizinhos por disputa de território ou tentativa de impor sua vontade sobre outra nação. Podemos pensar o quanto evoluímos durante a pandemia, em que países se ajudaram tanto em pesquisa quanto em ajuda ao entenderem que todos somos humanos e que as fronteiras são invenções humanas, artificiais.
Infelizmente, parece que já esquecemos isso e os órgãos multinacionais estão com extrema dificuldade de agir para uma solução. Além disso, cada vez cresce mais o pensamento individualista-nacionalista em cidadãos de diversos países, os quais ainda teimam em achar que sua nação é a melhor e que não precisam das outras para viver.
Que possamos, como cidadãos de uma nação, mas como seres humanos da Terra, combater esse pensamento e cooperar para que ninguém tenha seu direito à existência cerceado ou negado.
Reflexão sobre Olhos de Wakanda: Conclusão
Olhos de Wakanda acaba com um “gostinho de quero mais”. A minissérie é muito boa para aprofundar na vida dos guerreiros wakandanos e perceber que a dedicação que eles têm pelo seu país vem a custas de muito sacrifício pessoal. Em vez de romantizarmos isso, como aconteceu depois do primeiro e segundo filmes, precisamos problematizar essa situação. Podemos sim nos dedicar a nossa nação, mas precisamos entender que ela não é a única e que é ela que está a serviço do povo, e não o contrário.
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Até a próxima e tenham uma boa viagem!
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